Era para ser o PR15 de Arouca – Viagem à Pré-História. Mas a chuva decidiu contar outra história… e levou a melhor. Ficámo-nos pela imponente Pedra Broa.
Sou um caminheiro com sorte. Regra geral, não chove nas minhas caminhadas. Os meus companheiros de trilha dizem que tenho um contrato especial com São Pedro — à prova de água. Mas, como toda a regra tem a sua exceção… desta vez choveu. Já chovia quando iniciámos o percurso, continuava a chover quando decidi que era melhor voltar para trás… e choveu o resto do dia.
O trilho, muito bem marcado e, até onde conseguimos ver, arranjado e limpo, estava transformado num verdadeiro rio. Aliás, todo o planalto da Serra da Freita parecia um mar de água.
Ainda assim, deu para perceber que este é um percurso excecional. O Rio Caima descia cheio, vibrante, transformando o seu leito numa sequência de cascatas e rápidos, envoltos numa natureza crua e impressionante.
Iniciámos o percurso junto ao Parque de Campismo do Merujal e seguimos o trilho no sentido dos ponteiros do relógio, em direção a Albergaria da Serra.
Após atravessarmos o Rio Caima na aldeia, o trilho segue por caminhos antigos junto ao rio que, num dia de chuva intensa, corre ágil na sua versão mais poderosa — indomável, vivo, absolutamente fascinante.
Serpenteamos pelas margens até ao local onde encontramos a Pedra Broa. Visitado o local, tomei a decisão mais sensata: não havia condições para cumprir os 17 km previstos. A serra estava linda, sim — mas furiosa, selvagem e muito molhada.
Serviu para abrir o apetite. Vou voltar, sem dúvida. Num dia de céu limpo, com vistas amplas e a serra na sua versão mais contemplativa.
A zona tem muitos estradões e caminhos, pelo que foi fácil encontrar um percurso mais ou menos em linha reta para regressarmos à aldeia.
Molhados que nem pintos, fizemos paragem no café da aldeia — que soube pela vida. Todos precisávamos de um local acolhedor, quente, com boa conversa.
Há no café um detalhe imperdível: uma velha cabine telefónica instalada no interior e, dentro dela, um daqueles telefones de disco, de outros tempos. Um pequeno tesouro inesperado.
Albergaria da Serra
Albergaria da Serra é uma pequena aldeia de montanha situada no concelho de Arouca, em plena Serra da Freita, no norte de Portugal. Integrada no território do Arouca Geopark, reconhecido pela UNESCO, destaca-se pela sua envolvente natural de grande beleza e pelo caráter rural preservado.
As casas tradicionais de granito, as ruas estreitas e o ambiente tranquilo revelam um modo de vida simples, profundamente ligado à agricultura e à pastorícia. A população reduzida contribui para uma atmosfera serena, onde o silêncio da montanha é interrompido apenas pelo vento e pelo som da água a correr nas linhas de água próximas.
Nas proximidades encontra-se a imponente Frecha da Mizarela, uma das mais altas quedas de água de Portugal, reforçando o encanto natural da região.
Mais do que um ponto no mapa, Albergaria da Serra é um testemunho vivo da relação harmoniosa entre o ser humano e a montanha.
Rio Caima
O Rio Caima nasce na Serra da Freita, no concelho de Arouca, e percorre vales profundos e paisagens verdejantes até desaguar no Rio Vouga, nas proximidades de Oliveira de Azeméis.
Na zona da nascente, o leito é estreito e irregular, com águas rápidas e frias a correr entre rochas graníticas. À medida que desce, o vale alarga-se, surgem margens mais acessíveis, campos agrícolas e pequenas povoações.
Historicamente, foi essencial para as comunidades locais — fonte de água, rega e energia para antigos moinhos. Hoje, é também um elemento paisagístico de grande valor, procurado por caminhantes e amantes da natureza.
A Pedra Broa
A Pedra Broa — também conhecida como Boroa — é um daqueles caprichos geológicos que nos fazem parar e olhar duas vezes. São blocos graníticos com fissuras poligonais que lembram a côdea da broa de milho, resultado de erosão diferencial ao longo de milhares de anos. Um verdadeiro testemunho da força paciente da natureza.
Conclusão
Não foi o PR15 completo. Não houve “Viagem à Pré-História” até ao fim.
Mas houve serra em estado puro. Houve chuva persistente, decisões prudentes e a promessa de regresso.
E isso, para quem gosta de caminhar, já é metade da aventura.
Apoios e acessos
Quando ir?
Todo o percurso é no planalto da serra, numa zona com vegetação rasteira e quase sem árvores, não há sombras, há que ter atenção ao calor, ao frio e sobretudo, não vão em dias de chuva continua.